quinta-feira, 22 de abril de 2010

“Relações entre a congada e o candomblé na Festa de São Benedito (Ilhabela – SP)”

Giovanni Cirino


No contexto da Festa de São Benedito (realizada no município de Ilhabela, litoral norte de São Paulo) no qual a congada é encenada, diversos elementos relacionados ao catolicismo popular e às religiões afro-brasileiras são expressos. A devoção ao santo toma lugar de destaque, sendo apresentada como a essência da festa. Promessa, louvação, transe, fartura e crença são expressas em performances específicas onde público integral e público acidental (Schechner, 1988) interagem na constituição da Festa. A presente comunicação tem o objetivo de expor alguns dos elementos expressivos presentes na Festa de São Benedito, buscando realçar nas relações entre as facções envolvidas na Festa, a produção de legitimidade e a agência dos elementos estéticos. Este empreendimento tomará como referência a interpretação que o povo-de-santo do Rancho Velho (candomblé Angola) faz da congada, buscando refletir sobre os aspectos relacionados ao universo sensorial – ligado principalmente à música, à dança e ao ritual – , bem como as configurações constelacionais entre dramas sociais e dramas estéticos, festa e religião.






Palavras-chave: congada, performance, drama social, drama estético, candomblé
“Fazer rir, fazer chorar”: a arte de Grande Otelo, ou, elementos cômicos e trágicos na trajetória existencial de um negro no imediato pós-abolição

Ana Karicia Machado Dourado


Sendo o nosso objetivo, a longo prazo, narrar a vida de Grande Otelo, procuraremos avançar um pouco no sentido de colocar em perspectiva histórica, a partir da equação histórica específica brasileira, a fórmula através da qual Grande Otelo definia sua arte: "Fazer rir, fazer chorar". Fórmula, eu diria, que define a trajetória de vida dele próprio, um moço negro que no imediato pós-abolição tinha um sonho, ser ator, sonho que realizado transcendeu os limites de uma vida individual. Pois ele, Otelo, foi constituído e ajudou a constituir um imaginário coletivo do que é ser brasileiro, constituição operada em diversos momentos e em diversos circuitos da história cultural no Brasil. Em muitos dos quais, aliás, ele foi presença marcante. Se destacarmos apenas o cinema, Otelo foi central para a chanchada, para Nelson Pereira, para o cinema novo, e também para o cinema marginal. Em cada um desses momentos, os cineastas envolvidos sublinharam de maneira diferente o que há de trágico e cômico na sobreposição identidade nacional/lugar social, simbólico do negro. Em cada um desses momentos, Otelo, ao construir seus personagens, viveu, também, um momento de formação da sua própria subjetividade. A articulação dialética entre vivências pessoais e representações sociais, implicada na performance de seus papéis, talvez tenha tornado possível para ele compreender novamente sua situação no mundo e o que poderia haver de trágico e cômico na trajetória existencial de negros e afro-descendentes pertencentes às primeiras gerações que conheceram a liberdade. Liberdade de querer um lugar no mundo para si, lugar que comporta escolhas e invenções, mas que também está histórica e socialmente determinado. Há uma tensão aí, e como toda tensão, pode fazer rir como pode fazer chorar. Ele soube disso como poucos. E isso fica evidente em diversas falas que iremos analisar.


Palavras-chave: chanchada, performance, relações raciais, formas trágicas, representação